A dor que se manifesta no íntimo vem logo depois do vazio de existir. O humor muda e quando isso acontece é preciso um ínfimo olhar, um pequeno sorriso sínico, desprezível e velado para trazer a solidão e o vazio.
Como uma navalha que corta o ego ela vem e não se mostra, deixando a ferida aberta, o nervo exposto pronto para ter sua sensibilidade usada na vil arte de torturar a si mesmo pelo que se faz e pelo que se deixou de fazer.
Lidar com suas escolhas torna-se uma tortura ácida e causticante, cruel e sem comparação. Quando um grande esforço é feito, quando se cava com as próprias mãos enquanto seu suor se faz lama na terra, e você luta contra as raízes do solo para sair de seu túmulo, do túmulo onde repousa seu Eu, e ao sair por sua lápide e se deparar com a noite, negra, sombria, doente e fria. Ao ver o fracasso de um mundo consumido em cinzas que outrora fora fogo e escuridão.
O metal que perfura o peito é o mesmo que acorrenta a alma em seus grilhões enferrujados. O metal da pútrida existência amaldiçoada e desvirtuosa vergonha de si, do medo corrosivo do fracasso, é açoitado pela ferrugem da esperança, decomposto pela salinidade luminosa do amor, enfraquecido lentamente pelas oportunidades que vem em abundância, uma após a outra, dadas pela infinita vida que há em seus pulmões.
O som corta as nuvens, que se afastam com o grito e deixam o sol resplandecer. De pé, em pé, fora de seu túmulo, com os braços abertos para o leste ele se encontra. Livre, ainda que seja de terra, ele contempla a luz do Rei Astro e encontra em si o perdão que buscava, a força para seguir em frente e andar rumo a Sol, rumo a Si,
Farelos caem, o metal se rompe e a alma se Cristifica em glória por existir. Agora ele não dorme mais o sono do mundo, agora ele caminha com os anjos em sua própria consciência.