terça-feira, 31 de julho de 2012

Kung Fu

Bodhidharma
        Ao contrário do que muitos pensam, Kung Fu não é uma arte marcial, mas sim toda arte marcial de origem chinesa. O termo Kung Fu era usado na China antiga para designar alguém que era muito bom em algo, que executava determinada atividade com perfeição. Ser um Kung Fu significa se dedicar para adiquirir maestria em alguma atividade, seja ela marcial ou não. O termo Kung Fu foi associado às artes marciais chinesas porque os praticantes treinam seus estilos com foco no domínio da arte e a execução das formas e técnicas com perfeição.
        As origens do Kung Fu remotam ao monge Bodhidharma, de oriundo do sul da Índia. A lenda conta que ele viajou para o sul da China, mudando-se para o norte posteriormente, ele teria sido o transmissor do Budismo Zen na China e durante sua viagem ele viu que vários monges chineses sofriam com a violência dos saqueadores que perturbavam os templos no intuito de apropriar-se dos tesouros, os monges, com uma filosofia pacífica não eram ainda treinados em formas de combate. Bodhidharma decidiu ensinar aos monges uma forma de se defender. Nesta época Bodhidharma teria, segundo a lenda, ensinado aos monges do templo da província de Henam várias técnicas internas, que envolviam meditação, respiração, concentração e o cultivo da energia interna e fortalecimento do corpo; e várias técnias externas que serviam para ensinar os monges a defender-se dos saqueadores. 
        Inspirado filosoficamente nos movimentos dos animais (tigre, louva-a-deus, macaco, serpente e garça) foi então desenvolvido ao longo dos anos foi desenvolvido o estilo Shaolin quan no mesmo templo de Henam onde Bodhidharma teria ensinado os monges. O estilo Shaolin quan recebe o mesmo nome do templo, Shaolin, e é considerado a mãe de todos os estilos de artes marciais chinesas. Até os dias de hoje não se sabe ao certo que foi o fundador e de onde veio a essência do Shaolin quan, mas sabe-se que é errado atribuir a criação do sistema a uma única pessoa, afinal de contas o mesmo papel importante que Bodhidharma teve, os vários mestres monges que aprimoraram a arte ao longo dos anos de treino também tiveram.
        Hoje em dia existem mais de 300 estilos diferentes de artes marciais chinesas sob o título de "kung fu", as artes se dividem em internas e externas. As artes externas ensinam as técnicas de combate e o aprimoramento físico do praticante, enquanto as artes internas ensinam o cultivo da energia interna através da respiração, meditação e concentração. Como artes internas podemos citar o Tai Chi, o Chi Kung e o Baguazhang, e como artes externas existem o Sanshou, o Wushu, o Hung Gar e o Sanda. Existem ainda as artes que são ao mesmo tempo internas e externas, como o Wing Chun, Nei Kung e o próprio Shaolin. As artes internas e externas recebem estes nomes porque, visto que são artes marciais, fazem analogia à um combate, ar artes marciais externas preparam o praticante para combater inimigos externos à ele que se manifestam como outras pessoas, enquanto as artes marciais internas preparam o praticante para combater seus inimigos internos que se manifestam na forma da ansiedade, medos, desejos e instintos.
Kin Lai
        Ainda é muito confundido o termo Kung Fu com o termo Wushu. À julgar por seus significados, o termo Kung Fu, como já foi mostrado, representa alguém que executa alguma atividade com perfeição, enquanto o termo Wushu pode ser traduzido como "a arte da guerra".
        Tradicionalmente usa-se o comprimento Kin Lai como saudação formal em todas as artes marciais chinesas. O Kin Lai é executado usando as duas mãos, a mão direita fechada encostada na palma da mão esquerda que fica aberta por cima da mão direita. O Sol e a Lua, unidos formam um novo caractere denominado Ming, que significa clareza ou esclarecimento. Esta saudação tem como significado "Inteligência vence a Força", visto que o uso da inteligência (palma da mão esquerda) é mais eficiente que a força bruta (punho da mão direita) já que está por cima do punho retendo seu avanço.
        Ser um Kung Fu requer dedicação, treino e especialmente a força de vontade de nunca desistir por mais duras que sejam as dificuldades encontradas em seu caminho rumo à perfeição, afinal de contas, como nos mostra o Kin Lai: a Inteligência vence a Força.

sábado, 21 de julho de 2012

O Caminho do Adepto

        Desde os primórdios da raça humana o Homem faz seus questionamentos e descobre suas respostas, que por si só geram outros questionamentos. Quando não se encontra uma resposta objetiva a mente humana tende a inventar uma alegoria para traduzir a subjetividade de uma resposta. Entender que as alegorias são apenas alegorias e desmistificar as crendices sob às quais nós vivemos é o caminho do verdadeiro Adepto.
        Desde o mundo antigo existem àqueles que tentam entender a si mesmo, buscando os fundamentos para seus medos, orgulhos e crenças. Estas pessoas passam por um processo de busca incessante que os leva ao autoconhecimento e ao autodomínio. Tudo isso é fruto de muita reflexão e prática de exercícios de autoconhecimento e introspecção. Às pessoas que seguem em suas buscas, conhecendo a si mesmo e se aperfeiçoando é dado o nome de Adepto.
        A origem do termo ainda me é desconhecida, porém ela é muito usada para distinguir os místicos e religiosos que apenas frequentam algum grupo por certa obrigação social, do verdadeiro buscador que deseja aperfeiçoar a si mesmo. Agora vem a pergunta, e o caminho do Adepto? Como é? Em que consiste? Quais são as escolhas?
        A filosofia antiga nos mostra que existem três caminhos para os que buscam o autoconhecimento e o autoaperfeiçoamento, cada um dos três caminhos é singular e nenhum supera o outro, mas sim existem em equilíbrio. Os caminhos são O Caminho da Mão Direita, O Caminho da Mão Esquerda e O Caminho do Meio. Estes nomes surgiram através da analogia de que o Homem é, em essência, composto pelos mesmos elementos que estão representados na Árvore da Vida. Para os conhecedores da filosofia da Cabala é fácil entender, mas para os que não conhecem é importante citar que a Árvore da Vida é um hieróglifo e portanto é composta por vários símbolos que estão dispostos em três pilares, o pilar da direita, o pilar central e o pilar da esquerda. Os símbolos representados em cada um dos pilares representa idéias positivas e negativas, que por definição não tem nenhuma relação com bem e mal, são apenas dois pólos de uma mesma energia. O pilar da direita abriga símbolos de cunho positivo e expandivos, enquanto o pilar da esquerda abriga símbolos de significância oposta, negativos e destrutivos. Sendo assim, concluímos que o pilar do meio abriga símbolos que transmitem o significado básico do Equilíbrio.
        Com a explicação acima é fácil entender o que significa cada um dos caminhos. O Caminho da Mão Direita é um caminho que preza a misericórdia, a bondade, o conhecimento, a razão, trata-se de um caminho onde se exalta as próprias virtudes e se combate as falhas. O Caminho da Mão Esquerda é um caminho que exprime maior emoção, embuído de sentimentos de justiça e severidade, em sua prática é um caminho que te leva a conhecer os seus piores defeitos e imperfeições, com o intuito de fazê-lo refletir e aceitar seus defeitos para usá-los a seu favor na sua evolução. O Caminho do Meio é um caminho de equilíbrio entre razão e emoção, entre defeitos e virtudes.
        A filosofia do Caminho da Mão Direita é encontrada em tradições místicas como o Hermetismo (e as Ordens Herméticas), a Wicca, o Budismo, no Kardecismo e nas demias vertentes mais puras do Cristianismo. A filosofia do Caminho da Mão Esquerda é encontrada com frequência no Caoísmo, e em vertentes de filosofia nem um pouco ortodoxas. Básicamente o Caminho da Mão Direita segue a frase "Que seja feita a Vossa Vontade" (ou seja, a vontade de nosso eu interior, a Verdadeira Vontade) e trabalha de forma prática com as virtudes à serem desenvolvidas pelo Homem, enquanto o Caminho da Mão Esquerda usa comumente os instintos selvagens do Homem para compreender seus defeitos e imperfeições, e seguem a frase "Que seja feita a Minha Vontade". Entrar em equilíbrio com seus instintos defeituosos e suas virtudes sublimes, e conciliar a sua vontade com a vontade divina, é o trabalho do Caminho do Meio, que busca sempre o Equilíbrio.
        O caminho de um adepto, seja ele qual for, é sempre cheio de ensinamentos e aprendizado. A evolução moral, intelectual e espiritual são os resultados esperados de uma caminhada dessas. Combater seus medos, superar seus defeitos e descobrir a cada dia mais sobre si mesmo é o que realmente acontece na vida de um Adepto. Grandes mestres do passado nos mostram sua sabedoria e nos revelam que eles próprios eram verdadeiros Adeptos, independente de religião ou seguimento filosófico.
        Minha opinião sobre os três caminhos apresentados neste post é que não importa o caminho que se escolha seguir para chegar ao autoconhecimento com o propósito de evolução, o importane é trilhar seu caminho e não desistir só porque as coisas parecem não dar certo. Tornar-se um adepto é uma decisão pessoal e, portanto, cabe a cada um perseverar, quebrar suas próprias barreiras e domar seus próprios defeitos, afinal de contas, se você espera conquistar algo que nunca teve, tem que estar disposto à fazer coisas que nunca fez. Continuar com a mesma atitude passiva de aceitar as limitações que o mundo lhe impõe não vai te fazer evoluir, vai apenas transformar-te em um ser estagnado e inerte. Se você quer mudar, crescer, aprender, evoluir, transformar-se em alguém melhor, lute, estude, aprenda, corra atrás e siga o caminho que falar mais alto ao seu coração. Acima de tudo, seja você mesmo e não aceite as influências e limitações impostas pela vida, mas reconheça nestas limitações uma oportunidade de tornar-se alguém melhor.
        A única vitória que realmente vale à pena é a vitória sobre si mesmo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Jogo de Interpretação de Papéis

        O famoso RPG (do inglês Role-playing Game), pode ter seu significado traduzido como Jogo de Interpretação de Papéis, porque é exatamente isso que ele é. Durante os jogos existem dois tipos de pessoas: os jogadores, que criam seus personagens e interpretam seus papéis na trama da história; e o Mestre (também chamado de Narrador), que conta a história, propõe desafios e conduz os personagens dos jogadores pela história.
        Jogar RPG é como participar de um teatro, os jogadores são os atores e o mestre/narrador é o diretor que conta a história e narra as cenas. Diferente do teatro no RPG não há um roteiro que TEM que ser seguido, o mestre prepara um resumo, como um passo-a-passo, de como ele pretende que seja a história e vai narrando as cenas e descrevendo os cenários para os jogadores, que por sua vez introduzem seus personagens no contexto interpretando suas personalidades.


        Bom, até aqui eu creio que todos já sabem, porém o que poucos percebem é que o RPG é uma grande ferramenta psicológica que estimula a leitura, imaginação, criatividade, visualização, concentração e o bom senso das pessoas. Jogar RPG te dá a oportunidade de criar seu próprio mundo, ou algo muito mais complexo, criar uma psiquê, uma personalidade, com seus medos, anseios, planos, virtudes e defeitos, que representará seu persoangem. E mais, o RPG possibilita você interpretar aquela psiquê, colocar-se momentaneamente no lugar daquele indivíduo fictício e emprestar seus sentimentos e emoções para que o personagem se manifeste através da arte de interpretar, estimulando sua empatia e sua percepção. Quanto mais bem construído for o personagem mais real ele vai parecer e aí está a graça da coisa.
        Jogar RPG não é só rolar dados e falar em nome de pessoas que não existem. Jogar RPG é criar, é sentir sentimentos que normalmente você não sentiria, é expandir sua consciência para um mundo de situações diferentes e principalmente saber separar o real do imaginário, ter a capacidade e a maturidade de tirar a máscara do personagem quando o jogo termina e voltar a ser você mesmo.
        Mas como voltar a ser você mesmo tendo sentido o que seu personagem sentiu? Visto o que ele viu e se colocado no lugar dele? Isso é uma questão que pode ser muito difícil para alguns jogadores, mas é muito fácil de se explicar: o RPG lhe dá a oportunidade de pensar, sentir e agir de forma diferente do que você naturalmente pensa, sente e age, portanto é muito difícil pensar, sentir e agir de formas totalmente diferentes do que você naturalmente faz e com isso é possível conhecer ainda mais sobre você mesmo prestando atenção nas qualidades e defeitos que você introduz em seus personagens, é possível até mesmo extravazar sentimentos que você contém, ou transformar seu personagem em alguém com características que você gostaria de ter, então, se você prestar bastante atenção na psiquê de seus personagens você vai acabar percebendo que eles, na verdade, são partes de você e em hora nenhuma você interpretou algo muito diferente do que você já tenha como idéia pré-concebida, o que houve foi que você colocou essa idéia pra fora em forma de um personagem.
        Quando você joga, se veste do personagem e atua, momentaneamente como ele, tendo o devido bom senso de que isso é apenas um jogo e nada mais do que isso, e portanto o objetivo central é a diversão e o entretenimento. Se for para se estressar com o grupo, discutir com o mestre ou reclamar disso e daquilo, não vale à pena participar. Por mais eficaz que seja o RPG como uma ferramenta psicológica, a diversão tem que estar acima de tudo, afinal, de que adianta se conhecer se você não consegue se divertir com isso?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Focar e Equilibrar




        Foi em janeiro de 2011, quando eu estava um pouco assustado e com medo de andar nas ruas, que eu começei a procurar aulas de defesa pessoal para ganhar mais segurança. Por sorte um amigo em uma conversa aleatória me falou que um outro amigo dele o havia chamado para aprender Wing Chun.  Na ocasião ele partilhava do mesmo interesse por defesa pessoal que eu, e me chamou para ir junto conhecer o local e o sistema Wing Chun. Chegando no local eu conheci o Si-Hing Marco (que é um ótimo professor), que me mostrou aula após aula os benefícios do Wing Chun, que vão muito além de meras técnicas de combate.
        Através do Si-Hing Marco eu entrei para a família Moy Ka, afiliado ao Sifu (mestre) Monnerat, que foi discípulo do grande mestre Moy Yat, que por sua vez foi discípulo do grande mestre Ip Man, o mais famoso praticante de Wing Chun até hoje.
        Neste pouco mais de um ano de treino eu consegui passar pelo nível básico (Siu Nim Tau) e iniciar o treinamento no nível intermediário (Cham Kiu). Muito mais do que socos e chutes foi me ensinado, engana-se quem pensa que o Wing Chun é apenas um sistema de combate, ele é uma forma de autocontrole, te ensina o tempo inteiro a controlar sua ansiedade e sua respiração, combater seus medos, relaxar em situações de tensão, manter-se calmo e frio para analisar o que está à sua volta e escolher a melhor saída à ser tomada. Com poucas aulas é possível perceber que não se tem controle nenhum sobre seu corpo e que toda a sua habilidade que você pensava que tinha na verdade não existe, percebe-se que seu corpo é muito mais controlado por seus instintos do que por sua razão. Com a prática adquire-se uma grande consciência corporal e um enorme domínio sobre o próprio corpo, os próprios movimentos, sem falar na grande sensibilidade que se aflora.

Lucas, Sifu Monnerat, eu e Vinícius
                                                      
        O Wing Chun não tem o objetivo de formar pessoas violentas e com indole duvidosa. A formação do bom caráter é fundamental para se aprender mais do que simples técnicas de combate. O Wing Chun é feito para pessoas que querem evoluir, não apenas em lutas mas principalmente em suas vidas pessoais. Todos os conceitos de relaxamento, de sensibilidade e de buscar a melhor saída são perfeitamente aplicáveis no nosso dia-a-dia e produzem ótimos resultados se praticados em nossa vida pessoal, com os amigos, no trabalho, com a família. 
        Saber respirar fundo, controlar a própria irritação, manter-se em um estado de neutralidade para tomar a decisão certa é fundamental para ser um bom praticante e uma boa pessoa, muitas vezes é isso que faz toda a diferença entre lutar e não lutar. Em todas as situações de conflito a melhor saída é não lutar, como diz Sun Tzu em seu livro A Arte da Guerra: "A excelência suprema não consiste em derrotar seu oponente em cem batalhas, mas vencer seu oponente sem precisar lutar". Ter que lutar significa que você já perdeu a batalha pela Paz.
        Obviamente essas qualidades não nascem do dia para a noite, tudo isso é fruto de muito treino, persistência, perseverança e obviamente humildade para aprender. Como me disse o Sifu Monnerat na ocasião em que autorizou minha passagem para o Cham Kiu: "Treino, treino e muito treino".

Para quem deseja conhecer mais sobre a família Moy Ka e o Wing Chun Kung Fu acesse: http://www.wingchun.org.br/