É muito comum, o pensamento humano distinguir entre bem e mal, herói e vilão, mocinho e bandido. Nos filmes, livros, quadrinhos, pinturas, desenhos, jogos, peças de teatro e músicas, sejam eles personagens bem definidos ou simples pronomes indefinidos, os antagônicos aparecem representando suas polaridades. Tais personagens aparecem nas histórias como um reflexo do pensamento humano. O psiquismo humano desde sempre classifica, qualifica e quantifica o bem e o mal, o homem mediano acredita que o bem é necessariamente bom e o mal é necessariamente ruim, tentando exaltar qualquer tipo de bem e reprimir e condenar todo tipo de mal.
Atualmente em várias histórias tem sido apresentado o conceito de anti-herói, um personagem que encontra-se em situações complicadas e através de escolhas, conscientes ou não, realiza ações duvidosas para se alcançar um bem maior. Geralmente as ações deste personagem geram um desconforto em vários personagens, fazendo-os questionar as reais intenções do anti-herói que no final consegue mostrar a todos que por mais chocante que seu plano tenha sido a evolução que se dá como fruto do plano é mais gratificante, fazendo valer o risco do plano.
O conceito de anti-herói mostra muito bem que muitas vezes para fazer um bem maior é necessário realizar um pouco de mal devidamente dosado. Óbviamente as escolas de filosofia e as religiões não vão nunca incentivar essa idéia pelo simples fato de que as pessoas não estão preparadas para receber a liberdade, as pessoas não tem a consciência necessária para serem livres e por isso ficam presos ao padrão religioso e/ou filosófico. Um ego que foi mal educado não aprende da noite para o dia a agir de forma consciente e por isso não pode ser livre dos grilhões morais da sociedade.
Frases como "minha liberdade termina onde começa a do próximo" servem para construir um padrão de moralidade que tem como objetivo educar as mentes menos conscientes. E se um professor de filosofia do ensino médio disser à turma de adolescentes, que ainda tem seu caráter maleável e em formação, que eles podem fazer o que quiserem, sem limites? E se esse mesmo professor disser para a mesma turma que eles não precisam respeitar o limite do próximo porque o próximo pode manipular e escravizar eles usando esse padrão? Não posso precisar o que exatamente iria acontecer, mas certamente essa turma crescedia de forma caótica, alimentando uma rebeldia paranóica contra o sistema moral existente, resultando na destruição da moralidade, o que por sua vez iria atrapalhar no desenvolvimento da consciência da mesma turma. Bom, isso já aconteceu.
Você duvida? Abra os olhos e olhe ao seu redor, use seu bom senso e diga-me, isso já não acontece nos dias de hoje? Não estamos vivendo a quebra de vários valores morais? Não estamos tendo ações cada vez mais caóticas que resultam na quebra dos grilhões mentais que compõem o padrão de moralidade que tinhamos à algumas gerações? Pois é, eu concordo que a moralidade das gerações passadas tinha suas desvantagens também, viamos absurdos como mulheres separadas serem discriminadas só pelo fato de terem que trabalhar fora para sustentar a família, atuando em um papel que era até então visto como função masculina. Outros absurdos também ocorriam, mas não é um absurdo a falta de respeito que ocorre nos dias de hoje? Não é absurdo a total inversão de valores que temos vivido? Não é absurdo um jogador de futebol que ganha milhões apoiar e incentivar o crime e o tráfico de drogas bancando festas enquanto um profissional que estudou anos e exerce funções essenciais para a sociedade não ganhar nem um décimo do que o jogador marginal ganha?
Não estou apoiando a estagnação nem os valores totalmente arraigados e padronizados da sociedade do passado, estou apenas ressaltando que no processo de mudança muitas falhas estão ocorrendo, as pessoas não recebem educação de base para pensar por si mesmo, elas não recebem incentivo para agir corretamente e não encontram, em hora nenhuma, boas razões para serem honestos, incorruptíveis e agirem de forma consciente. As falhas no processo de mudança ocorrem porque as pessoas são levadas a pensar de forma padronizada e a focar as idéias em um único ponto, mas nunca é ensinado as pessoas a pensarem por si mesmo.
Ter um pensamento claro do todo é essencial para uma mudança consciente, saber equilibrar os bons valores com a liberdade é o ponto crucial que separa a liberdade da libertinagem, e é exatamente este ponto que falta na maioria das pessoas.Ainda neste texto eu quero ressaltar que a atual "liberdade" que as pessoas reclamam para si hoje em dia tem quebrado vários grilhões dos paradigmas antigos, mas vale realmente à pena libertar-se de certos grilhões para acorrentar-se em outros? Trocar um grilhão por outro é realmente liberdade? Acorrentar suas consciências à uma falsa liberdade é a liberdade que se quer?

